
A megaconfusão de Joaçaba
A sorte foi lançada no interior de Santa Catarina.
Mas resta uma questão. Quem é o sortudo de verdade:
Maninho ou Chico Louco? Façam suas apostas
Joaçaba, cidade de 25.000 habitantes no interior de Santa Catarina, pretendia alcançar alguma fama no fim deste ano com a inauguração de uma gigantesca estátua de um certo frei Bruno. Trata-se de um frade franciscano que viveu na cidade nos anos 50 e ganhou fama de milagreiro. Com 37 metros de altura, o monumento foi projetado para ser o terceiro maior das Américas. Os joaçabenses dizem que ele só perderá em tamanho para a Estátua da Liberdade e para o Cristo Redentor. Joaçaba não precisou esperar pela inauguração – nem por um milagre de frei Bruno – para ganhar notoriedade. A cidade ficou famosa graças a um golpe de sorte, literalmente. Há duas semanas, foi feita lá uma das duas apostas ganhadoras do concurso 898 da Mega-Sena, que pagou um prêmio de 55 milhões de reais. O bilhete com os números 03, 04, 08, 30, 45 e 54 deu ao seu detentor direito à metade da fortuna. A outra parte ficou com um felizardo de Rondônia que jogou nas mesmas dezenas. A notícia se espalhou pelos 240 quilômetros quadrados de Joaçaba como fogo no mato. Todo mundo queria saber quem era o novo milionário da cidade. E aí teve início uma megaconfusão.
No dia seguinte ao do sorteio, um domingo, começou a correr o boato, logo confirmado, de que o vencedor era Chico Louco, dono de uma serraria. Chico é conhecido por adorar todo tipo de jogo – carteado, rifa, loteria – e por ter o hábito de nunca pagar suas contas em dia. Segundo sua família, ele deve "uns 300.000 reais" em pensão para a ex-mulher, impostos, empréstimos e financiamentos bancários atrasados. "Ele é meio desorganizado financeiramente", resume seu irmão mais velho, Hélio da Igreja. De fato, Chico costuma se atrasar para pagar o que deve, mas, é claro, correu loucamente para receber o prêmio logo na segunda-feira de manhã. Sua primeira providência foi dividir os 27,5 milhões em cinco contas, tendo como titulares ele próprio, a mãe, o irmão, a irmã e um cunhado. "Não deixei tudo junto porque tenho uns problemas fiscais em meu nome", explica. Depois, sacou 280.000 reais e foi para a rua comemorar. Saldou contas antigas e, como todo ganhador da Mega-Sena que se preza, comprou um carro zerinho e pagou em dinheiro vivo.
Enquanto Chico festejava o novo vidão de milionário, um de seus funcionários, Maninho, bradava aos quatro ventos que, na verdade, era ele o dono do bilhete vencedor, e não o seu patrão. Maninho conta que, no sábado do sorteio, pegou uma carona com Chico para voltar para casa. Lá pelo meio-dia, eles passaram em uma lotérica para jogar na Mega-Sena. "Não tinha lugar para estacionar, e o Chico ficou de fazer as apostas mais tarde, no centro. Ele disse para eu marcar os meus números num papel e dar 1,50 real para ele fazer o jogo. Combinamos que, se a gente ganhasse, ia repartir o prêmio", diz. Maninho explica que escolheu as dezenas com base no número de um telefone celular que sua mãe, que vive em outra cidade, esquecera com ele na semana anterior. "São os números do celular da mãe. É só olhar. Agora, quero a minha metade do dinheiro. O que é certo, é certo", reclama.
A coincidência entre os números do celular e os do bilhete, de fato, impressiona. Um juiz da cidade acreditou no rapaz e mandou bloquear as contas em que o prêmio havia sido depositado até o caso ser esclarecido. "É um absurdo. O jogo era meu, só meu. Quando falei que ia apostar na loteria, o piá respondeu que isso era jogar dinheiro fora. Disse que preferia gastar o 1,50 real em cerveja", esbraveja Chico, louco de raiva. Ele juntou documentos para provar que escolheu as dezenas com base em datas comemorativas de sua família. "Meu filho nasceu no dia 3 do mês 4. Meus pais se casaram num dia 30. Eu nasci em 54. E o 45 é o 54 de trás para a frente. É isso. Só não vê quem não quer." Mas, Chico, de onde saiu o número 8? "Ah, o 8 é meu número de sorte." Ele diz que não dará um tostão a Maninho, a quem chama de desonesto e mal-agradecido. Enquanto o imbróglio não se resolve, Chico passa os dias na casa do irmão, na cidade de Toledo, no Paraná. Ele conseguiu salvar 2 milhões de reais do bloqueio judicial, transferindo essa quantia para uma sexta conta bancária. Para aliviar a tensão, joga na loteria: "Não consigo ficar sem jogar. Desde que ganhei, aposto todos os dias. Se acertei uma vez, por que não posso conseguir de novo?". Chico anda, como sempre, à procura de números vencedores. Se alguém tiver um, ele aceita a sugestão de bom grado. Mas sem essa de dividir prêmio.